BIOMECÂNICA DA CINTURA ESCAPULAR E SUAS PRINCIPAIS LESÕES


BIOMECÂNICA DA CINTURA ESCAPULAR E SUAS PRINCIPAIS LESÕES

Por Matheus Ramos


A cintura escapular consiste numa unidade funcional complexa que é composta por 4 articulações diferentes. A sua estrutura é composta por uma ligação importante na entrada do tórax, juntamente com a parte inferior do pescoço até a porção proximal dos membros superiores, sendo incluídos em sua estrutura: ossos, músculos, ligamentos e fáscias da região. Na sua estrutura óssea, a cintura escapular é formada pelos seguintes componentes: Escápula; Úmero; Clavícula; Esterno, primeira costela e T1. Sua unidade funcional  é composta de três articulações verdadeiras (esterno-clavicular, acrômio-clavicular e glenoumeral) e duas pseudoarticulações (escapulo-torácica e subacromial) (EJNISMANN; MONTEIRO; UYEDA, 2008).

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Fonte: Anatomy Book, 2013

   A estabilidade da articulação glenoumeral está diretamente relacionada ao manguito rotador e secundariamente aos músculos: deltóide, trapézio, serrátil anterior, rombóides, grande dorsal e elevador da escápula. O manguito rotador é uma estrutura composta por quatro músculos, são eles, subescapular, supraespinhoso, infraespinhoso e redondo menor, e tem linha de ação que contribui para a estabilidade dinâmica desta articulação, rodando e comprimindo a cabeça umeral contra a cavidade glenoidea (BUSSO, 2004).

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FONTE: Universidade de Motricidade Humana de Lyon, 2014

   Este complexo articular trabalhando sincronicamente, permite aos membros superiores grandes amplitudes de movimentos, sendo no corpo humano a articulação de maior mobilidade, mas em contrapartida pode se apresentar como um dos complexos articulares mais instáveis, devido exatamente a este grande grau de mobilidade existente (GHORAYEB et al.,1999; HALL, 2000; HIRSCHFELD, 1990). Por ser também uma área de transição entre dois componentes com características distintas (componente rígido e móvel), este local pode ser muito suscetível a incidência de lesões, por conta do estresse sofrido na região, como aponta Silva (2013).

   Como o profissional de educação física lida frequentemente com indivíduos com lesões articulares e por conta da cintura escapular ser um complexo articular importante,  responsável pela realização de  movimentos que auxiliam no  fortalecimento dos membros superiores, torna- se importante reunir e analisar as mais recorrentes lesões da região proposta para subsidiar suporte teórico a profissionais com o intuito de auxiliar na prescrição de exercícios específicos que não maximizem os efeitos negativos propensos pelas lesões na cintura escapular.

   Como foi aludido anteriormente, a cintura escapular se apresenta como o complexo articular de maior mobilidade no corpo humano, mas ao mesmo tempo, apresenta grande instabilidade. Isto se dá porque o ombro é uma juntura móvel, com uma fossa glenóide rasa, com mínimo em suporte ósseo (DINIZ et al, 2015). Por conta disso a estabilidade da articulação depende dos tecidos moles como músculos, ligamentos e cápsula articular. Essa conformação anatômica determina maior mobilidade articular em troca de menor estabilidade (SOARES, 2003).

   Facci (2000), aponta para a existência de uma série de sintomas agudos e incapacitantes, que podem ser advindos de traumas, movimentos incorretos, movimentos repetitivos e extensivos (como ocorre na prática desportiva em alto rendimento), alterações vasculares importantes e alterações anatômicas que podem contribuir ativamente para aquisição de lesões na cintura escapular.

   Pela mesma ter uma relação importante com o restante do corpo, Silva (2013) afirma que existem evidencias importantes de que desvios posturais podem estar diretamente relacionados ao posicionamento da cintura escapular, realizando sua projeção para cima, para baixo, para frente ou para trás, contribuindo ativamente para um quadro disfuncional para o segmento superior. Silva (2013) ainda complementa que a cintura escapular também tem relação importante indireta com outros segmentos corporais importantes como a coluna lombar e, consequentemente, relação com os membros inferiores. Por conta disso, lesões na cintura escapular podem contribuir ativamente para a diminuição ou incapacidade de diversas atividades cotidianas. Dentre as lesões mais recorrentes, podemos destacar lesões por conta de diversos tipos de etiologias. Sendo elas classificadas por como:

Afecção periarticular : Tendinopatia do manguito rotador; Tendinite calcificada; Ruptura do manguito rotador; Tendinopatia e ruptura do bíceps; Bursite subacromial. 

Alteração da articulação glenoumeral : Capsulite adesiva; Artrites inflamatórias; Artrites sépticas; Ombro de Milwaukee; Osteoartrites; Osteonecroses. 

Alterações estruturais: Artrite esternoclavicular; Osteoartrose acromioclavicular; Radiculopatia cervical; Lesão nervosa; Síndrome do desfiladeiro torácico; Distrofia simpático reflexo; Tumores e metástases.

   Muitas dessas lesões ou patologias, apresentam incidência na população em geral em cerca de 2,7 a 3 % de apresentação. Por conta deste fato, apresentaremos a seguir as lesões que ocorrem com mais frequências, apresentando- se como graves ou moderadas, dependendo logicamente do grau de acometimento sofrido. Dentre este grupo, podemos destacar:

Tendinites: Constituem Lesões inflamatórias dos tendões musculares, ocorridas por influência nutricional devido a uma alimentação irregular ou a distúrbios metabólicos, que podem contribuir na deposição de agentes irritativos nos tecidos musculares (agentes resultantes de um metabolismo deficitário por disfunção de um órgão) (SILVA, 2013).

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FONTE: Universidade de Motricidade Humana de Lyon, 2014

Luxações e Sub- Luxações: Sendo a anterior a mais frequente, estando relacionada ao movimento de abdução, rotação externa e/ou extensão. Vale salientar que em sua maioria as luxações ocorrem por fatores traumáticos, e uma minoria atraumática devido a pouca estabilidade já mencionada desta articulação (HALL, 2000; IVERSEN, 1985; MELLION, 1997).

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FONTE: Universidade de Motricidade Humana de Lyon, 2014

Síndrome do impacto: Refere-se à redução do espaço subacromial nos movimentos de abdução ou flexão conjuntamente a rotação interna, levando os tecidos compreendidos neste espaço a ficarem comprimidos, atritando e impactando a bursa, os tendões do manguito rotador (inserções distais) entre a cabeça do úmero e o teto osteoligamentar coracoacromial ou acrômio (BROWN ET AL., 2001; MELLION,1999). O impacto tende a causar micro e macrotraumatismos nos tendões provocando tendinites e consequente bursite. A insistência desta síndrome pode acarretar em ruptura parcial ou total do manguito rotador (BROWN ET AL,2001; HALL, 2000; MELLION, 1997).

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Capsulite adesiva: A capsulite adesiva é definida como uma rigidez articular glenoumeral associada à dor. A maioria dos autores classifica essa afecção de acordo com a etiologia, podendo ser idiopáticas ou traumáticas (WELNNER et al, 2000). A capsulite ocorre, mais frequentemente, em pacientes na quarta ou quinta décadas de vida. O trauma, imobilização do ombro, diabetes melitus, tireoidopatias, cardiopatias, doenças pulmonares, cervicais, neurológicas, psiquiátricas e reação à medicação são fatores predisponentes para essa patologia, e o diagnóstico é clinico, marcado pela limitação do arco de movimento passivo do ombro associado a dor.

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Fonte: Anatomy Book, 2013

   Como foi aludido anteriormente, a cintura escapular é um importante segmento do corpo, que auxilia nos movimentos referentes a mobilidade e ao fortalecimento dos membros superiores. Diante disso, se faz importante que o profissional de educação física possa estar sempre atento a promover exercícios que auxiliem na manutenção da saúde desta estrutura, além de estar sempre sensível aos diversos tipos de lesões e patologias para que assim, prescreva exercícios precisos que não maximizem os efeitos negativos propensos por estes acometimentos.

REFERÊNCIAS


BROWN, David E. e NEWMANN, Randall D.Segredos em Ortopedia. Porto Alegre: Artmed, 2001.

BUSSO LG. Proposta preventiva para laceração no manguito rotador de nadadores. Rev Bras Ciênc Mov. 12(3):39-45, 2004.

CINESIOLOGIA. Faculdade de Motricidade Humana. Lyon, França. 2014.

FACCI LM. Síndrome dolorosa do ombro: Análise de sua incidência e características. Arq Ciência Saúde UNIPA. 4(3):195-200, 2000.

GHORAYEB, Nabil e BARROS, Turíbio (org.). O Exercício: Preparação Fisiológica, Avaliação Médica, Aspectos Especiais e Preventivos. Rio de Janeiro: Atheneu, 1999.

HALL, Susan J. Biomecânica Básica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.

HIRSCHFELD, Peter e WINKEL, Dos Medicina Ortopédica pelo Método de Cyriax: Diagnóstico Funcional e Terapia Casual, Santos: 1995.

IVERSEN, Larry D. e CLAWSON, D. Kay. Urgências en Ortopedia Traumatologia. Buenos Aires: Panamericana, 1985.

MELLION, Morris B. Segredos em Medicina Desportiva.Porto Alegre: Artmed, 1997.

SILVA, F.D.R. Lesões da cintura escapular. Osteopatia, 2013. Disponível em: http://osteopatiafrancelo.blogspot.com.br/2013/12/lesoes-de-cintura-escapular-ombro.html.

SOARES STM. Trabalho preventivo para lesões de ombro e cintura escapular em atletas amadores de judô. Rev Bras Ciên e Mov. 11(1):29-34, 2003.

WERNER A, MUELLER T, BOEHM D, GOHLKE F. The stabilizing sling for the long head of the biceps tendon in the rotator cuff interval. A histoanatomic study. Am J
Sports Med. 2000;28 (1):28-31.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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