ABC FC – Fisiologia no Nordeste do Brasil


Por Thaís Torres


 

Você que acompanha esse site conhecerá nessa semana o cotidiano do fisiologista do departamento profissional de futebol do ABC Futebol Clube – O mais querido!

Marcelo Henrique Alves Ferreira da Silva conta um pouco sobre sua atuação com os atletas profissionais e das categorias de base do clube alvinegro da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

Marcelo, conte sobre sua função como fisiologista no ABC Futebol Clube.

Bom, em relação ao profissional, eu me responsabilizo pelo controle das sessões de treino, dando atenção aos microciclos semanais, principalmente quando os atletas estão em temporada de competições; também planejo a carga de treino, a prescrição dos treinos, juntamente com os preparadores físicos. Tento sempre fazer o mesmo para as categorias de base, quanto à organização de treinamentos, mesmo que o profissional consuma mais meu tempo. Ainda com os atletas do profissional, faço periodicamente as avaliações físicas para acompanhar a condição dos atletas e atendê-los de forma mais adequada.

Suas atividades no ABC sempre foram na área de Fisiologia?

Iniciei na preparação física, nas categorias de base, em 2000 e permaneci até 2004, e neste ano passei a auxiliar na preparação física do profissional. Em 2008 voltei ao clube, como fisiologista da base, após uma ausência por motivos acadêmicos, e em 2010 passei a atender aos atletas profissionais como fisiologista.

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Marcelo, atualmente temos muitos jovens que visam a carreira na área esportiva. Conta para gente como foi sua caminhada até estar como fisiologista.

Iniciei o curso de graduação em Educação Física, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, em 1998, apesar de ter abandonado o curso de Engenharia Química, no 4º período, enquanto era atleta no ABC, por ter percebido que não era a área que queria seguir. Como atleta eu comecei a me interessar mais pela preparação física e decidir mudar! Finalizei Educação Física em 2003, me especializei em Avaliação Física, pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB, finalizando em 2005, e em Fisiologia do Exercício, pela Universidade Gama Filho, finalizando em 2007. Na época eu visava também a área acadêmica e então ingressei no mestrado, pela UFRN, entre 2006 e 2008, na área de Psicobiologia. No ano seguinte recebi a proposta de compor o quadro docente do Centro Universitário do Rio Grande do Norte – UNI-RN, ainda permaneço nesta Instituição. Em 2012, iniciei o doutorado em Ciências do Desporto, pela Universidade de Coimbra, em Portugal, que ainda está em andamento. É uma Instituição que mantém boas relações com a educação brasileira, principalmente no que se refere à validação de diplomas, sendo assim os jovens que tiverem interesse em ter uma experiência em outro país tem esta opção. Este ano iniciei a graduação em Nutrição, mas tive de trancar por enquanto, devido ao tempo escasso.

Como você busca atualizações para sua área?

A minha atual condição como doutorando acaba ajudando neste ponto, e sempre que há cursos na área eu procuro fazer, como em prevenção de lesões, biomecânica, treinamento desportivo, e temas afins que surgem por aqui. Fiz dois cursos da CBF, um com o tema ‘Treinamento de Força’e outro ‘Preparação Física’. Nessas idas a Portugal, aproveito os cursos e aulas relacionados ao treinamento de futebol; aqui no Brasil, há pouco fiz um curso com o treinador holandês Raymond Verheijen, relacionado à periodização. Então eu busco me esforçar bastante neste sentido, mesmo com a falta de tempo. Isso também é importante para minhas aulas, pois busco transmitir aos alunos estas informações.

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Nosso país é conhecido como ‘País do Futebol’ – mesmo que o esporte tenha origem britânica – e por muito tempo este esporte ficou em condições bem iniciais. Há alguns anos temos diversos esportes sendo baseados em evidências científicas. Como você enxerga esse avanço?

É fundamental. Acredito que por volta da década de 80 ou 90 esta área cresceu, dando atenção ao treinamento e também ao atleta. Hoje a ciência se preocupa com o controle de treino e de carga, são assuntos que não recebiam tanta atenção. Sabe-se que não é a ciência por si que fará um time campeão, mas ela contribui bastante, somada a outros fatores que vão levar a equipe ao ápice em uma competição. Tudo aquilo que a ciência puder nos oferecer é bem vindo, pois atualmente temos respaldo tanto no tático, quanto no psicológico, como no técnico, portanto eu vejo que é de suma importância e o Brasil tem avançado neste sentido. Os próprios dirigentes, outrora torcedores que possivelmente enxergavam o clube somente com o coração hoje, além de torcedores, também compreendem a importância das áreas de organização, de atendimento, de recuperação, trabalhando em conjunto.

Também contamos hoje com uma facilidade de obter conteúdo, de ter acesso aos dados, e isso contribui bastante. Lembro-me que anteriormente, para fazer um curso, eu teria de me deslocar para o sudeste do país, e hoje a comunicação está mais facilitada e faz com que as informações cheguem em diversos lugares.

Cite uma área que você desenvolveria um estudo.

Eu daria atenção à periodização, que pudesse respaldar nossas atividades, mesmo que a nossa dinâmica seja intensa e o elenco também mude com frequência. Atentaria a isso pois acredito que ainda há muitas perguntas a serem feitas, quanto as divisões ao longo da temporada, nas próprias sessões de treino, os reflexos no atleta, principalmente na pré-temporada. Acredito até mesmo que haja, no futuro,  uma homogeneização dos métodos de treinamento no futebol, vejo isso como algo positivo, criando uma referência, até para futuras análises, pois poderíamos compreender qual a real resposta que tal treino traz ao atleta.

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É possível aplicar diferentes atividades, considerando as posições que cada atleta desempenha?

Isso é importante, e procuro aplicar diferentes atividades sim, considerando não só a sua posição, mas também a condição física; podemos separá-los em grupos distintos, mais generalistas: abaixo, intermediário e normal, aplicando atividades diferenciadas. Apesar de que para este tipo de prática, precisamos de um grupo maior de profissionais auxiliando, isso se torna um fator limitante, por vezes.

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Como é a classificação da condição do atleta, para que ele seja enquadrado nos diferentes níveis de treino?

Utilizamos os resultados das avaliações periódicas. Se estivermos durante uma temporada de competições a atenção se volta para as avaliações neuromusculares, que possam trazer uma resposta refere à potência e à força, até para que tenhamos um controle, um parâmetro, na compreensão de quais os atletas que ainda estão correspondendo às atividades aplicadas. Para aqueles que não estão em atividade frequente, sendo pouco utilizados, as avaliações ocorrem também, com atenção às antropométricas, como %G.

Durante a temporada a gente consegue perceber aqueles que possam ter uma queda no desempenho e vamos organizando os ajustes dentro dos microciclos, principalmente. Porém, novamente, nossa dinâmica acaba interferindo nisso, como nos casos em que temos 2 jogos na semana, e a atenção se volta para a recuperação do atleta e não, necessariamente, para os ajustes em relação ao desempenho.

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Para os atletas que estão relacionados numa competição, qual o tipo de atividade que recebe maior atenção?

Atividades relacionadas à força e à potência são mais aplicadas, pois percebemos que estas são características que sofrem bastante oscilação durante a temporada, e minimizando isso poderemos perceber um reflexo no atleta. Também atividades regenerativas, principalmente nas 48 horas seguintes ao jogo.

Marcelo, você já trabalhou com as categorias de base e, atualmente, sempre que possível, presta suporte a ela. Na sua opinião, como deve ser o perfil de um profissional que trabalha com os jovens dessa categoria?

Ele precisa ter conhecimento do seu público, em todos os aspectos, principalmente no que se refere ao crescimento e desenvolvimento deste atleta em formação. Eu costumo dizer que o trabalho com os atletas em formação é mais delicado do que com os profissionais. Os profissionais estão ‘prontos’, teoricamente. Na base temos de aprimorá-los, auxiliá-los na construção, sem atrapalhar seu desenvolvimento. Então o profissional deve ter um embasamento teórico, deve ter conhecimento do que faz, um olhar diferenciado para os atletas que vem das categorias menores sabendo observar suas particularidades. A aplicação dos treinos deve ter algumas diferenciações de acordo com a condição maturacional daquele jovem. Essa atenção é de suma importância.

Como direcionar atividades para meninos que apresentam estágios maturacionais distintos?

Inicialmente precisamos identificar em que estágio eles estão. Aqui costumamos fazer por um protocolo que utiliza equações preditoras da idade óssea, validadas aqui no Brasil. Nossa preocupação se concentra no grupo que se apresenta tardio no desenvolvimento.  Nos treinos eles recebem uma carga um pouco menor, ou treinam com um tempo reduzido, num volume total reduzido, caso o treino inclua uma distância percorrida muito grande, eles farão uma distância menor. Mas acredito que esse seja um assunto com muitos questionamentos ainda, como citei acima.

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Em relação aos trabalhos diferenciados para atletas que possuam um desempenho diferente, você acredita ser positivo?

Sim, acredito ser positivo este aprimoramento, desde que haja controle para não exceder as condições dos meninos, para que não seja prejudicial.

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