Líquidos Corporais e Sódio no Exercício


Líquidos Corporais e Sódio no Exercício

Por Mariana Flores


Cerca de 2,5 a 5kg de perda de peso corporal foram registrados em atletas dentro de um período de uma hora durante uma atividade de resistência sob condições quentes e úmidas. Toda essa perda corporal resulta, essencialmente, da perda de suor. O suor que é liberado em quantidades suficientes para causar uma perda de peso de apenas 3% pode, significativamente, diminuir o desempenho de uma pessoa (atleta ou não-atletas). Já uma perda rápida de 5 a 10% do peso, pode frequentemente ser séria, levando a câimbras musculares, náuseas, vômitos e até ao coma. Por isso, é essencial repor esses líquidos assim que eles são perdidos.

A concentração de solutos ou partículas de um líquido é conhecida como osmolaridade. As principais partículas do LEC (líquido extracelular) são o Na+ e os ânions que o acompanham; Cl e o HCO3 e a glicose e ureia, enquanto que o K+ e os ésteres de fosfato orgânico (ATP, fosfato de creatina e fosfolipídeos) constituem predominantemente o LIC (líquido intracelular). Sendo, portanto o sódio o principal determinante da osmolaridade dos nossos fluídos. A fórmula da osmolaridade plasmática pode ser representada da seguinte maneira:

osm

A perda de líquidos corporais pelo suor pode gerar tanto uma hipernatremia quanto uma hiponatremia. A hipernatremia pode ser gerada no momento em que há perdas soluções hipotônicas em grande quantidade pelo suor no ato da atividade física, assim aumentando a osmolaridade corporal. Outro motivo da hipernatremia, seria o aumento da secreção hormonal de aldosterona estimulada pelo estado hipovolêmico gerado pela perda de líquidos excessiva. Já a hiponatremia pode ser causada pela secreção aumentada de ADH (hormônio antidiurético) secundária ao estado hipovolêmico em que o indivíduo se encontra. Desta forma, o equilíbrio rege sobre uma balança, podendo ocorrer as duas condições em momentos diferentes e por respostas diferentes, porém, sendo muito mais evidentes os achados de hipernatremia.

Um atleta, pode-se tornar aclimatado ao calor através de uma exposição excessiva e gradual pelo período de uma a duas semanas, pois as glândulas sudoríparas também se tornam aclimatadas. De modo que, a quantidade de sal perdida no suor torna-se apenas uma fração daquela que seria perdida antes da aclimatação. Essa aclimatação da glândula sudorípara resulta, principalmente, do aumento da secreção de aldosterona pelo córtex adrenal.

Experiências com unidades militares expostas a exercícios pesados no deserto, demonstraram ainda outro problema eletrolítico – a perda de potássio! Essa perda resulta, parcialmente, do aumento da secreção de aldosterona durante a aclimatação ao calor, o que aumenta a perda de potássio na urina assim como no suor. Como consequência desses achados, alguns líquidos suplementares para atletas contêm quantidades apropriadamente proporcionais de potássio juntamente com sódio, geralmente na forma de suco de frutas.

Partindo das evidências apresentadas acima, o Colégio Americano de Medicina do Esporte faz as seguintes recomendações sobre a quantidade e a composição dos líquidos que devem ser ingeridos antes, durante e após um exercício ou competição:

  1. Recomenda-se que indivíduos consumam uma dieta nutricionalmente balanceada e bebam líquidos de forma adequada durante o período de 24 horas antes de um evento, principalmente durante o período que inclui a refeição antes do exercício, de modo a promover uma hidratação adequada antes de um exercício ou competição.

  2. Recomenda-se que os indivíduos ingiram em torno de 500ml de líquidos nas duas horas que antecedem um exercício, para promover uma hidratação adequada e haver tempo suficiente para excreção da água ingerida em excesso.

  3. Durante o exercício, os atletas devem começar a beber logo e em intervalos regulares, com o objetivo de consumir líquidos em uma taxa suficiente para repor toda a água perdida através do suor (isto é, perda de peso corporal), ou consumir a maior quantidade tolerada.

  4. Recomenda-se que os líquidos sejam ingeridos em uma temperatura menor do que a ambiente (entre 15º e 22ºC) e com sabor atraente. Os líquidos devem estar prontamente disponíveis e ser servidos em recipientes que permitam a ingestão de volumes adequados com facilidade e interrupção mínima do exercício.

  5. Recomenda-se a adição de quantidades adequadas de carboidratos e/ou eletrólitos para eventos com duração maior do que uma hora, já que não prejudica a distribuição de água pelo organismo e melhora o desempenho. Durante exercícios com duração menor que uma hora, há pouca evidência de que haja diferenças fisiológicas em termos de desempenho se se consumir um líquido com carboidratos e eletrólitos ou água pura.

  6. Durante um exercício intenso que dure mais que uma hora, recomenda-se a ingestão de carboidratos em uma taxa de 30 a 60 gramas por hora para manter a oxidação de carboidratos e retardar a fadiga. Esta taxa de ingestão de carboidratos pode ser efetuada sem comprometer a distribuição de líquidos, através da ingestão de 600 a 1.200 mililitros de soluções que contenham 4 a 8 gramas por decilitro de carboidratos. Os carboidratos podem ser na forma de açúcares (glicose ou sacarose) ou amilo (p.ex., maltodextrina).

  7. Recomenda-se a adição de sódio (0,5 a 0,7 gramas por litro de água) na solução de reidratação se o exercício dura mais que uma hora. Isto pode ser vantajoso por melhorar o gosto, promovendo a retenção de líquidos e possivelmente revertendo a hiponatremia em alguns indivíduos que ingerem quantidades excessivas de líquidos. Há pouca base fisiológica para a presença de sódio em uma solução de reidratação oral no sentido de aumentar a absorção intestinal de água, já que há sódio suficiente disponível da refeição anterior.


    Referências

GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 11ª ed. Rj .Guanabara Koogan, 2002

Revista Brasileira de Medicina do Esporte, vol.5 no.1 Niterói Jan./Feb. 1999

Baker LB, Sweating Rate and Sweat Sodium Concentration in Athletes: A Review of Methodology and Intra/Interindividual VariabilitySports Med. 2017 Mar;47(Suppl 1):111-128

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