Futebol na altitude


Fevereiro de 2007. O Flamengo está jogando uma partida da Libertadores na Bolívia. O estádio do seu oponente, Real Potosi, fica no alto dos Andes, a aproximadamente 4.000 metros acima do nível do mar. Debaixo de uma chuva forte, Flamengo está perdendo de 2 X 0. Muitos de seus jogadores precisam de máscaras de oxigênio para aliviar os efeitos da altitude. Mesmo depois de ter arrancado um empate ao final do jogo, o clube anuncia que não jogará mais em altitude.

Assim começou a “controvérsia das altitudes” no futebol. A Confederação Brasileira de Futebol levou o caso do Flamengo para a FIFA e reclamou que estádios no topo dos Andes não eram sustentáveis para o futebol. Em maio de 2007, a FIFA lançou uma norma que determinava que “no melhor interesse da saúde dos jogadores”, partidas de futebol não poderiam mais ser realizadas acima de 2.500 metros de altitude. Bolívia, Equador e Colômbia protestaram: a medida colocaria um fim aos jogos em seus estádios nacionais. Em resposta, a FIFA suspendeu a decisão alegando necessitar de estudos mais aprofundados.

Agora vamos para junho de 2010 e a altitude é, de novo, um problema no futebol. A Copa do Mundo da África do Sul foi a primeira, em 24 anos, a sediar jogos a altitudes consideravelmente acima do nível do mar. O principal estádio, Soccer City de Johannesburgo, está a 1.701 metros. Não é exatamente a altitude dos Andes, mas é alto o bastante para afetar o desempenho dos jogadores. Outros seis estádios também são elevados.

No calor da discussão sobre a Libertadores, a FIFA havia convocado cientistas médicos renomados para uma conferência, a fim de aprender tudo que era sabido sobre a influência da altitude no futebol. A primeira coisa que a delegação estudou foi a performance física. E concluiu que altitudes abaixo de 500 metros não tinham efeitos sobre os jogadores. Acima de 500 metros, porém, efeitos negativos como aceleração dos batimentos cardíacos, falta de ar e vigor reduzido foram apontados – e ficavam mais acentuados conforme a altitude crescia, notando que algumas pessoas eram mais afetadas do que outras. A 2.000 metros, o mal estar passava a ser um problema e era necessária a aclimatização [período de ajustamento ao clima e altitude local]. Acima de 3.000, havia golpes decisivos de performance.

Os efeitos da altitude são principalmente causados pela redução de oxigênio do ar que, por sua vez, limita a quantidade de oxigênio no sangue. A queda de performance de cada indivíduo pode ser calculada por uma medida chamada VO2max – a taxa máxima de consumo de oxigênio por minuto, e por quilo, daquela pessoa. Pesquisas mostraram que, a cada 1.000 metros de altitude, o VO2max de atletas cai aproximadamente 6% e o tempo que leva para que eles cheguem à exaustão cai 14%.

A maneira tradicional de diminuir esses danos é passar alguns dias se adaptando à altitude. A FIFA recomenda que este período dure de três a cinco dias, porém, é impossível alcançar o mesmo desempenho que o jogador teria ao nível do mar. Mesmo jogadores bolivianos que vivem a 3.600 metros têm um VO2max 12% mais baixo do que jogadores que moram na praia.

Então os efeitos fisiológicos da altitude distorceram todos os resultados da Copa do Mundo? Isso não deve ter acontecido. Nenhum dos estádios estava acima de 2.000 metros e a maioria dos 32 times estave em lugares de altitude durante a competição. E os que não estiveram, com certeza, usaram câmaras de altitude para se preparar.

Mas há alguns poréns. Médicos notaram que atletas que se aclimatizam a altitudes e voltam repentinamente ao nível do mar podem ter uma considerável queda de desempenho. Isso poderia influenciar os resultados das semi-finais, já que ambas foram disputadas ao nível do mar e entre times que ganharam as quartas de final em locais elevados.

E não é só o desempenho dos jogadores que é alterado. O grupo de pesquisa da FIFA também reparou que a aerodinâmica da bola muda e pode pregar uma peça nos jogadores. Isso acontece porque a pressão atmosférica afeta a velocidade da bola no ar. Johannesburgo, por exemplo, tem apenas 81% da pressão atmosférica da Cidade do Cabo.

O resultado disso é que os jogadores também devem se acostumar também ao vôo da bola. Para fazer uma bola entrar no ângulo em uma cobrança de pênalti, eles precisam aprender a mirar ligeiramente mais abaixo que o normal, reduzindo o ângulo de decolagem da bola por cerca de meio grau. E goleiros que estão acostumados ao comportamento da bola ao nível do mar terão que ser um pouco mais rápidos, ou ver a bola sacudindo a rede.

É importante observar que na Copa de 1986, no México, a última vez em que a altitude foi um fator relevante, o vencedor Argentina jogou todos os seus jogos a 2.000 metros, enquanto os outros competidores tiveram que trocar constantemente de altitude. Isso deu uma vantagem à Argentina?

Fonte: revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT146255-17770,00.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s