Fisiologista Clodoaldo Dechichi mostra a triste realidade do futebol


Campinas, SP, 1 (AFI) – Dias atrás deparei com imagens de um jogo de futebol da década de 70. Fiquei encantado com a qualidade técnica e romantismo daquele cenário. De repente cai na realidade e percebi que tudo havia mudado.

É verdade, o futebol vem se transformando ao longo dos tempos. Até a década de 60 tudo era amadorismo nos clubes e seleções. Na Copa de 1966, na Inglaterra, aconteceu a primeira mudança de impacto no cenário mundial do futebol. Após a vitória do Brasil nos mundiais de 1958 e 1962, os europeus necessitavam conter a supremacia da qualidade Sul-Americana.

Físico contra a Técnica
Para vencer a técnica a Europa optou pelo aprimoramento atlético dos seus jogadores. Foi o primeiro grande passo para o desenvolvimento físico dos jogadores de futebol, através do início e avanço desportivo com a marcação “homem-a-homem”. O futebol técnico do Brasil voltou a vencer nos gramados mexicanos em 1970. Era o tricampeonato conquistado pelo futebol arte.

Em 1974 o futebol tático ressurge de forma diferente na Copa da Alemanha com a implantação do chamado “Carrossel holandês” (“Laranja Mecânica”) de Rhinus Michel, técnico da Holanda. Os deslocamentos táticos naquela oportunidade encantaram o mundo.

Renovação de conceitos
Para o aprimoramento atlético dos jogadores de futebol foi necessária a participação da Ciência Desportiva, renovando conceitos e conhecimentos dos preparadores físicos dos clubes e das seleções. Surgiu então o papel do fisiologista no futebol, fundamental para o desenvolvimento da performance atlética.

No futebol atual já não basta somente a existência da técnica, cuja qualidade tem se verificado existir cada vez menos nos clubes de futebol. Tornou-se necessário percorrer distâncias, deslocar-se com maior potência, força e agilidade, chegar primeiro que o adversário à bola.

O futebol tem sofrido muitas mudanças nos últimos anos, principalmente em função das exigências físicas cada vez maiores, o que obrigam os atletas a trabalharem perto de seus limites máximos de exaustão, com maior predisposição às lesões.

Mudanças de direção repentinas, giros velozes, maior exigência na potência de aceleração, aumento da distância total percorrida na partida (atualmente próxima a 12 km, bem diferente dos 5 km de décadas atrás) e ritmo mais intenso de jogo são algumas características marcantes que precisam ser destacadas.

Falta o ponto de equilíbrio
No Brasil, tem sido difícil atingir um ponto de equilíbrio entre o preparo físico adequado compatíveis com os limites toleráveis do atleta. Por um lado, temos o avanço da medicina desportiva, levando ao melhor conhecimento da fisiologia do esforço e permitindo protocolos específicos para cada atleta, de acordo com suas características e especificidades.

Em contrapartida, deparamos com recuperações inadequadas e insuficientes dos jogadores entre os jogos, treinamentos desequilibrados durante a semana de treinos, fazendo com que os jogadores já cheguem com fadiga ou com “semi-fadiga” nas partidas, elevando de maneira brutal as incidências de lesões.

Agora surge de modo inovador a tal terceira sessão de treinamento num mesmo dia, uma invenção engenhosa dos preparadores físicos e fisiologistas atuais para suprirem o tempo reduzido de treinamento físico do futebol. As elevadas incidências de lesões ósteo-musculares estão ocasionando significativos desfalques nas equipes do futebol brasileiro, caracterizado por departamentos médicos dos clubes cada vez mais lotados.

Cobranças e nova função
Desta forma o ônus é inevitável. Não está na hora dos preparadores físicos e fisiologistas serem mais cobrados pelas respostas físicas dos seus jogadores nos treinos e nos jogos? A luz vermelha se acende e traz o alerta aos dirigentes do futebol brasileiro.

Não seria o momento de se criar a função do Coordenador de Desenvolvimento de Performance Atlética para que se possa direcionar, analisar, avaliar e coordenar as atividades dos profissionais da área da preparação física e do treinamento? Ele poderia conduzir os específicos trabalhos para uma equalização do planejamento, eficiência e qualidade do desenvolvimento da performance atlética dos jogadores e minimização das ocorrências das lesões.

Afinal, os profissionais do treinamento constantemente migram para outras equipes e o ônus continua permanecendo com o clube. No futebol atual corre-se muito, mas joga-se pouco cada vez mais.

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2 comentários sobre “Fisiologista Clodoaldo Dechichi mostra a triste realidade do futebol

  1. Professor Clodoaldo, o Ceará Sporting Club faz exatamente o que o senhor sugere. Não temos o cargo mas temos a função. O fisiologista, após os testes de pré-temporada monta relatórios segmentados tanto por posição quanto por carências e potenciais dos atletas e orienta o preparador físico sobre quais treinamentos se deve executar. Durante os microciclos, através de relatórios baseados na intensidade relativa individual usando frequênia cardíaca máx e de limiar, orienta sobre a duração das sessões e qual trabalho mais adequado à se fazer. Ano passado tivemos expressivos 6 lesões musculares durante todo o ano, sendo o time da série A que mais jogou, 84 partidas, e pela posição geógráfica, certamente o que mais viajou.
    Não resta dúvida que esse é o próximo passo dos fisiologistas dentro do futebol. Entender de controle e prescrição das cargas de treinamento, seus componentes e suas interações.
    Forte abraço e parabéns pela matéria

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  2. Muito interessante, mas não acredito em criação do cargo.
    O que não podemos deixar que qualquer pessoa se intitule “Fisiologista do Exercício” sem ao menos ter estudo, vivência e conhecimento real de sua área de trabalho, não basta finalizar apenas uma Especialização. Acredito ainda na maior integração da Comissão Técnica em aspectos científicos de todas as áreas, podendo assim entender a importância dos mecanismos agredados a Ciência do Esporte.
    Temos hoje conceitos superiores aos aplicado, intitulado talvez de nova geração.

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