HISTÓRIA RESUMIDA DA ELETROCARDIOGRAFIA


Vários avanços na Fisiologia e no campo tecnológico tornaram possível o surgimento do Eletrocardiograma no início do século passado. Willem Einthoven (1860-1927) é considerado o pai da Eletrocardiografia. Ele nasceu na ilha de Java, atualmente Indonésia, mas logo cedo sua família foi morar na Holanda, onde estudou e desenvolveu seu trabalho. Inicialmente ele estudou Medicina na Universidade de Utrecht (Holanda). Após se associar com um grande fisiologista (Frans Donders), ele foi nomeado Professor de Fisiologia da Universidade de Leiden (Holanda). Publicou estudos sobre várias áreas da Fisiologia, mas a sua maior contribuição a ciência ocorreu quando Einthoven se interessou pelo registro da atividade do coração, utilizando um eletrômetro capilar, que havia sido usado por Augustus D. Waller (1856-1922). Com o eletrômero capilar descoberto pelo físico francês Gabriel Lippman, Waller foi o primeiro a registrar de forma rudimentar, em 1887, a atividade elétrica do coração captada na superfície do corpo. O eletrômetro capilar de Lippman consistia de um tubo preenchido com mercúrio e ácido sulfúrico, que por ser menos denso ocupava a parte superior do tubo. Os potenciais elétricos alteram a tensão superficial, fazendo o mercúrio flutuar levemente (deslocando-o para cima ou para baixo), indicando a diferença de potencial existente. Este movimento era captado na forma de “eletrograma”.

Após alguns anos de muito trabalho, Eithoven produziu no início do século passado (1903) um galvanômetro, que poderia ser usada para pesquisa médica. O galvanômetro de corda permitiu estudar a atividade elétrica do coração, captada na superfície do corpo. O laboratório em Leiden se tornaria um lugar visitado por pesquisadores de todo o mundo. Esta pesquisa lhe valeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1924.

Este aparelho inicial em nada lembra os atuais Eletrocardiógrafos, que são aparelhos microprocessados, de pequenas dimensões, que usam a lógica digital. O galvanômetro de corda de Eithoven ocupava duas salas, pesava 270 Kg e necessitava de cinco pessoas para ser operado. O paciente permanecia com os dois antebraços e a perna esquerda imersos em baldes metálicos com solução salina (figura).

O galvanômetro de corda de Einthoven consistia de um filamento muito fino de quartzo recoberto por prata, esticado num campo magnético muito forte. A fraca corrente captada do coração movia discretamente o filamento de quartzo. A oscilação deste dependia da intensidade e direção do potencial gerado no coração e captado na periferia pelos eletrodos. As sombras geradas pela movimentação do fio de quartzo eram projetadas num filme fotográfico, que se deslocava à velocidade de 25 mm/s.

Trabalhando com o galvanômetro de corda, Eithoven estabeleceu os princípios básicos para a obtenção do eletrocardiograma. Ele criou as derivações bipolares membros: D1, D2 e D3. Estas derivações são obtidas com os eletrodos colocados nos membros e dispostas num triangulo eqüilátero, com o coração ocupando o centro deste triângulo. Os ápices seriam o braço esquerdo, o braço direito e a perna esquerda. Cada derivação mede a diferença de potencial elétrico entre dois eletrodos: o explorador (+) e o indiferente (-). Apartir da posição dos eletrodos nos membros, Eithoven formulou a equação: II=I-III. As ondas do eletrocadiograma foram nomeadas PQRS e T. A onda U foi descrita posteriormente. Através de trabalhos publicados na primeira década do século passado, Einthoven descreveu traçados com hipertrofia, extrassístoles, bloqueio AV completo, fibrilação atrial, etc. Os traçados nesta fase inicial apresentavam somente as derivações bipolares (D1, D2 e D3).

O médico inglêsThomas Lewis (1881-1945) deu o valor clínico ao novo método e escreveu o 1º livro de eletrocardiografia clínica . Inúmeras são as contribuições de Lewis para a Eletrocardiografia, seja no reconhecimento e descrição das arritmias e para a popularidade e ensinamento do método.

Ao lado de Eithoven e Lewis entre os grandes nomes da Eletrocardiografia podemos citar o médico americano Frank Norman Wilson (1890-1952). Introduziu as seis derivações precordiais em 1934, que consistiam de um eletrodo explorador no tórax e um indiferente, com potencial elétrico nulo, o que permite registrar somente as variações do potencial no eletrodo explorador. Wilson descreveu as seis derivações precordiais, observando que estas apresentam traçados em “muitos aspectos similares aos obtidos com os eletrodos colocados no coração exposto”. O eletrodo indiferente é obtido através do “terminal central de Wilson”. Este terminal é obtido pela ligação entre cada membro (braço esquerdo, braço direito e pé esquerdo) a um ressistor de 5000 Ohms e os resistores unidos a um ponto (terminal central).

Mais tarde, em 1942, foram adicionadas as derivações unipolares aumentadas (aVF, aVL e aVR) por Emanuel Goldberger. Ele introduziu modificações no eletrodo indiferente (terminal central), aumentando a amplitude do sinal em 50% (daí o “a” no nome destas derivações)

O eletrocardiograma com o tempo se tornaria um método importante na Cardiologia, tal como ainda o é nos dias atuais, desempenhando papel importante no diagnóstico dos transtornos do ritmo, nas síndromes coronarianas, nos crescimento das câmaras, etc. Algumas condições tem no ECG o método principal para o seu diagnóstico, como os bloqueios intraventriculares, as arritmias, a pré-excitação ventricular, as canalopatias. Diversos métodos utilizados na prática cardiológica são derivados da eletrocardiografia, tais como o teste de esforço, o sistema Holter, o ECG de alta resolução, o mapeamento de superfície corporal, o estudo eletrofisiológico invasivo, entre outros.

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