Soro fisiológico ameniza efeitos do clima seco.


Para respirarmos bem, o pulmão precisa estar 100% úmido. Quando o ar que inspiramos só tem 20% de umidade, por exemplo, todo o corpo “empresta” os 80% de água que falta. E é preciso repor essa perda.

Várias cidades brasileiras estão em estado de alerta por causa do tempo seco. E nesse inverno da secura, a gente pergunta: como é que você está se sentindo? O que realmente acontece com o nosso corpo? E como é possível sobreviver nesse deserto?

A reportagem é de Cristina Serra, em Brasília – uma das cidades mais secas do país – e Renata Cafardo, em São Paulo, onde o ar está irrespirável.

Aviso de utilidade pública: estado de atenção devido à baixa umidade do ar.

Em Monte Sião, Minas Gerais, a umidade do ar está em 23%. Presidente Prudente, São Paulo, 8% de umidade e clima de deserto. Na capital paulista, incêndios, uma camada grossa de poluição e seca recorde: 12% de umidade. Está difícil respirar.

O ar seco, bem abaixo dos 60% de umidade considerados ideais, está fazendo moradores de São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná lotarem os hospitais e sentirem uma sede fora do comum.

Para respirarmos bem, o pulmão precisa estar 100% úmido. Quando o ar que inspiramos só tem 20% de umidade, por exemplo, todo o corpo “empresta” os 80% de água que falta.

“A cada inspiração e expiração eu estou perdendo água para dentro do pulmão”, explica o fisiologista Paulo Zogaib.

É preciso repor essa perda. O corpo aproveita melhor líquido fresco em pequenas quantidades. “Você não pode se desidratar para depois se hidratar ou reidratar. Você tem que manter a hidratação”, ensina o fisiologista.

“Qualquer lancezinho de escada que eu subo eu fico ofegante. O nariz entupido é o pior de todos, porque dificulta muito a respiração”, diz uma mulher.

Olhos, nariz, a traquéia que leva o ar ao pulmão, todos produzem o muco, uma camada protetora. A baixa umidade do ar resseca o muco. Essas células, chamadas ciliadas, que em dias normais, funcionam como uma “vassoura” contra a poeira e outros invasores, são prejudicadas pelo muco seco e espesso. Os cílios não batem direito: daí as infecções respiratórias serem tão comuns no tempo seco. Pior quando há poluição.

“Nesse momento em que estamos mais frágeis, nós estamos recebendo um ar de pior qualidade. Então, você junta dois fatores que se potencializam e o resultado é o adoecimento”, explica Paulo Saldiva, do laboratório de Poluição Atmosférica

Umidade a 70% em Manaus. “Transpira muito, é o tempo todo suado”, reclama Edmilson.

O Edmilson viajou de Manaus a São Paulo e já está sentindo os efeitos do clima. Ele conta que já amanheceu com o nariz entupido. E topou participar de um teste: vai ser analisado por uma equipe de especialistas que vai medir os efeitos do ar seco nos olhos, no sistema respiratório e até no coração.

Os testes avaliam infecções, a capacidade do pulmão, o interior das nariz, os olhos. Coração e pressão são monitorados.

Edmilson sai para conhecer a cidade em um dos dias mais poluídos do ano. Ele avisa: “O nariz está incomodando”.

Sete horas depois, os exames são refeitos no Incor e no Hospital das Clínicas. Comprovado: as narinas estão ressecadas. O muco, mais espesso, deixou a respiração 40% pior. A receita é soro fisiológico no nariz.

“Isso pode ser feito nas duas narinas, várias vezes ao dia. Quanto mais fizer, melhor” recomenda a otorrinolaringologista Maria Dantas Godoy.

“Ele saiu com o nariz bom e volta com o nariz inflamado”, explica o médico Paulo Saldiva.

A qualidade da lágrima também piorou e a pressão subiu.

“A gente imagina que a poluição vai trazer algum dano, mas não que tão rapidamente a gente ia sofrer”, diz Edmilson.

São Paulo deve ter uma chuva leve no começo da semana, mas a seca continua na cidade e no restante do Brasil em setembro. Enquanto a chuva forte não vem, veja como vivem os moradores de Brasília, uma das cidades mais secas do Brasil.

Verde do gramado some em Brasília
Em Brasília, onde foi parar o verde do gramado? Sumiu. E este é apenas um dos efeitos da seca. Tem mais: “Dificuldade para respirar, para dormir”, reclama um homem. “A pele fica muito seca, parece que ela está rasgando”, diz uma mulher. A seca vai de abril a setembro, todo ano. Por isso, cada brasiliense tem sua estratégia de sobrevivência.

O efeito da seca é ainda pior nas horas mais quentes do dia. À 13h30, de sol a pino, é importante buscar uma sombra pra se proteger. Mas se você não tem à mão um chapéu ou sombrinha, vale o improviso.

A dona de casa Elenilde já se tornou especialista. A família mora em um assentamento. A poeira agrava os efeitos da falta de umidade. Preste atenção nas dicas da família: As crianças só podem brincar do lado de fora, quando o clima refresca, a poeira não fica acumulada e deve-se beber água o tempo todo. Creme hidratante também deve ser usado sempre.

E na hora de dormir, uma toalha molhada perto da cabeça e um balde cheio de água no chão.
“Ajuda os meninos a respirar melhor e dormir melhor”, disse a faxineira Elenilde dos Santos.

A seca só não é pior porque quando a cidade foi criada, houve a preocupação de plantar uma espécie de cinturão verde entre os edifícios. “Existe água no subsolo e as plantas então retiram essa água e jogam para a atmosfera”, explica o ecologista Paulo Salles.

O Lago Paranoá também ajuda. Quem mora perto da água nota a diferença. “Quando a gente vai à cidade, a gente sente o ar mais seco, sente um incômodo”, diz a empresária Cláudia Lacerda.

A seca também afeta os animais. E a receita para aliviar o sufoco deles é parecida com a nossa. Você já ouviu falar no picolé de elefante? Não? Mas existe. Não é bem um picolé. É tão pesado como um tijolo, é feito de muitas frutas e legumes e é um reforço importante na alimentação do elefante nessa época de seca. O elefante “chocolate” adora a guloseima gelada.

Para as cobras, um umidificador especialmente adaptado. É para não ressecar a pele. Não é um luxo? Mas a seca tem lá suas recompensas. É a época da floração dos ipês. E o sol se despede todos os dias com uma beleza de espetáculo.

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