Crioterapia deixa de ser exclusiva para atletas e se populariza


por Thaís de Luna

RODRIGO MINOTAURO

Machucou-se? Coloque uma bolsa com gelo em cima da lesão, para desinchar e aliviar a dor. A técnica, difundida ao longo dos séculos — há registros do uso de neve para esses fins nos primeiros Jogos Olímpicos, em 776 a. C., na Grécia —, é respaldada pela medicina e tem nome: crioterapia. A palavra significa terapia pelo frio e, segundo o fisioterapeuta Adilson Sales, é uma maneira eficiente e barata de reduzir reações inflamatórias e espasmos musculares. “Crioterapia, na verdade, é a diminuição da temperatura da área afetada, por meio do contato corporal com qualquer substância, instrumento ou ambiente com a finalidade terapêutica”, explica o fisioterapeuta. “O termo é ligado a aplicações de gelo por ser o meio mais utilizado.”

É um tratamento habitual entre atletas de alta performance. É comum ver jogadores de futebol como Ronaldo Fenômeno fazerem banhos de imersão em água fria com gelo logo após os jogos, para evitar futuras dores musculares. Lutadores brasileiros que participam do campeonato de vale-tudo do Ultimate Fighting Championship (UFC), como Rodrigo Minotauro e Anderson Silva, utilizam a prática. No intervalo entre as lutas, também é possível ver os treinadores de ambos aplicando sacos de gelo nas áreas onde eles sofreram mais pancadas, visando o efeito analgésico. O procedimento, porém, não se restringe a atletas. É cada vez mais frequente que pessoas comuns, simplesmente adeptas de atividades físicas regulares, adotem o hábito.

Triatleta há seis anos, o empresário carioca Raphael Pazos, 35, adotou a crioterapia por recomendação de sua treinadora, Márcia Ferreira. O gelo o ajuda a se recuperar de treinos e competições intensas. “Após o desgaste físico grande, o atleta sofre algumas minilesões e, com a aplicação de gelo, essa recuperação é muito mais rápida”, diz Pazos. Uma vantagem do tratamento que o empresário destaca é o relaxamento muscular. Para ele, o banho de imersão é necessário após participar de provas de alta intensidade, como maratonas, por aumentar a pressão nos vasos sanguíneos e melhorar a circulação de oxigênio.

A treinadora do triatleta carioca o alertou para os riscos de se submeter a esse procedimento por longos períodos. “Se a exposição ao frio for muito demorada, os benefícios dão lugar a problemas como a morte de células, provocada pela baixa circulação de sangue no local”, afirma ele, citando Márcia. A treinadora recomenda o tempo ideal para ficar em banheiras ou tonéis de água fria: “No caso de imersão do corpo em gelo, o tempo de contato deve ser de quatro a seis minutos. Se aplicado em áreas isoladas, com o auxílio de bolsas, no máximo, 20 minutos”. Os banhos são mais indicados para quem faz exercícios de alto impacto, especialmente quem participa de competições.

Já o estudante de direito Marcelo Lopes, 23 anos, aprendeu a usar gelo em lesões com o pai, Caetano. Ele adota a crioterapia em sua forma mais tradicional, que é a aplicação do material frio em cima do local afetado. “Toda vez que ele está ‘quebrado’, como quando chega do futebol, por exemplo, coloca uma bolsa de gelo onde está com dor”, descreve, ressaltando que o pai adquiriu esse hábito após aprender com médicos. Marcelo atualmente faz musculação e capoeira, mas desde criança pratica atividades físicas. Começou no judô aos 7 anos e, desde então, se mantém ativo.

O universitário adota a crioterapia quando, após uma atividade física, sente incômodo muscular ou nas articulações. “Percebo que tenho uma recuperação mais rápida quando faço isso”, justifica. Seu objetivo é interromper o processo de inflamação das lesões que sofre. O fisioterapeuta Adilson Sales destaca que a diminuição de reações inflamatórias é apenas um dos benefícios desse tipo de tratamento. “Alguns outros são a redução do espasmo do músculo, o alívio da dor (função analgésica), o controle da hemorragia quando fibras musculares se rompem e a diminuição da atividade metabólica”, cita.

Acompanhamento

A técnica de suporte em computadores Alice Bandeira, 21 anos, luta muay thai (boxe tailandês) há um mês. Como a atividade é de alto impacto, é comum que ela sinta dor muscular após as aulas. Para aliviar dores e evitar que o local lesionado fique roxo, ela usa gelo. “Percebo que também diminui o inchaço no local e reconstrói alguns vasinhos rompidos”, comenta. A redução das manchas roxas ocorre, segundo o reumatologista Rodrigo Aires, por causa das propriedades vasoconstritoras, ou seja, de contração de vasos sanguíneos, presentes em substâncias frias.

“Faço o uso de gelo por conta própria. É costume os outros nos indicarem colocar gelo quando temos uma contusão”, admite a técnica. “Mas se a dor e o inchaço permanecem, vou ao médico verificar se não é nada mais sério”, garante. Aires afirma que, para a crioterapia ser um tratamento efetivo, é preciso o acompanhamento de um reumatologista ou de um fisioterapeuta, que podem explicar como potencializar o procedimento e, se necessário, indicar o uso de um analgésico ou anti-inflamatório em casos mais sérios.

O ortopedista Davi Haje — que considera a crioterapia um procedimento válido para lidar com traumas em articulações, ligamentos, músculos e tendões — explica que o uso de gelo e de substâncias frias é mais eficiente nas primeiras 48h depois da lesão. Aires concorda e complementa que “a compressão deve ser leve e o membro deve estar elevado”. Após esse período, Haje acredita que o contraste de gelo e água quente pode ter maior eficácia. “Assim, a revascularização dos tecidos é estimulada”, explica.

Restrições

É necessário destacar que a terapia com o uso de elementos frios não cura doenças, mas auxilia no tratamento. Entretanto, mesmo para um procedimento simples, como colocar uma bolsa de gelo no local machucado, há restrições. “É contraindicado colocar gelo em cima de locais infeccionados, feridas abertas e em contraturas musculares na coluna”, avisa o ortopedista. Tais ações podem piorar o quadro clínico da pessoa.

Já Sales lembra que o tratamento deve ser usado com precaução por pessoas hipertensas e com problemas circulatórios. Ele alerta que o uso incorreto de gelo, bolsas térmicas, sprays e afins pode causar queimadura pelo contato direto com a pele. “A crioterapia é totalmente contraindicada para portadores de doenças como a crioglobulinemia”, acrescenta, em referência ao problema de saúde no qual o sangue do indivíduo contém proteínas que não se dissolvem em temperaturas baixas.

Aires acrescenta que portadores do fenômeno de Raynaud precisam ter cuidado ao se submeter ao procedimento. Nesse fenômeno, as artérias de pessoas hipersensíveis ao frio se contraem, causando alteração na cor da pele nas extremidades: elas ficam pálidas ou arroxeadas (cianóticas, na linguagem médica).

Dilatação e contração

O banho de contraste consiste em usar materiais quentes e frios alternadamente, fazendo com que os vasos sanguíneos se dilatem e se contraiam, respectivamente. As alterações nos vasos estimulam a circulação do sangue. Essa técnica é usada, basicamente, no tratamento de inflamações. Segundo especialistas, é mais eficiente quando a inflamação se encontra em uma fase mais crônica, já que, nas primeiras 48 horas, o uso do calor pode aumentar o inchaço no local. O procedimento básico consiste em a pessoa colocar a área lesionada em água quente, de três a cinco minutos. Em seguida, passar para a água gelada, por um ou dois minutos. Costuma-se repetir a operação três vezes.

Fonte: Correio Brazilense.com.br

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3 comentários sobre “Crioterapia deixa de ser exclusiva para atletas e se populariza

  1. Caros colegas após ler essa excelente coluna… fiquei na questão! É realmente viavel o uso da crioterapia quando se pode simplificar o processo de recuperação para os atletas e até para os não atletas após as atividades??
    Recentemente encontrei um artigo que não encontrou diferenças significativas entre realizar ou não a crioterapia após esforços intensos.

    http://www.rbcdh.ufsc.br/DownloadArtigo.do?artigo=568

    Gratos de vossa atenção,
    aguardo sugestões!

  2. parabéns pelo artigo, muito claro e elucidativo.

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